Argumentandum

Arquivos de julho de 2007


O ser humano desumano

Publicado em 25 de julho de 2007 na categoria geral.

Algo que sempre intrigou o ser humano é a certeza (ou não) da existência de Deus e do diabo. Deus existe? O diabo existe? Essa é uma questão tão antiga e tão importante quanto o próprio surgimento e sentido da vida.

E, sobre esse polêmico tema, pouco importa o conhecimento da pessoa. Qualquer pessoa, da mais tola a mais erudita, possui suas próprias convicções quanto à veracidade do Céu e do inferno. Até mesmo do real poder que têm Deus e o diabo que, é compreensível, dependem um do outro para a imagem de ambos, um sem o outro não faria lá muito sentido. É preciso existir o bem, e é preciso existir o mal.

Mas nada é muito claro nesse assunto. Que importância tem a fé na vida das pessoas? Se uma pessoa em nada acredita, por isso seria menos feliz? A felicidade depende ou independe de uma crença?

Partindo da idéia de que Deus foi quem criou tudo e todos, e é puro amor, como poderia Ele então ter criado o diabo, permitindo assim o aparecimento do mal? E se o mal é eterno e onipresente, podemos até concluir que o diabo é tão “divino” quanto Deus.

O imaginário popular é de que quando alguém acerta foi ajudado por Deus, quando erra foi esquecido por Ele, ou até mesmo tomado pelo diabo. Ou seja, você nunca é totalmente responsável pelos seus atos. O bom merece um “graças a Deus”, e o ruim fica como um “castigo merecido”.

No Brasil, talvez até pela falta de assistencialismo por parte do governo, isso chega a se tornar absurdo. Tudo é culpa do invisível, seja ele qual for. Se uma pessoa recebe uma promoção, foi Deus quem quis assim; se é demitida, foi coisa do diabo. Isso sem contar as coisas que “Deus não gosta”. Não pode mentir, porque Deus não gosta. Não pode roubar, porque Deus não gosta. Também não pode olhar a mulher do próximo, porque Deus não gosta. Ou então, tudo isso é tentação do diabo.

E, no meio de toda discussão, surge a tese do “livre-arbítrio” como uma boa saída para explicar isso tudo: você recebe a vida, decide pelo caminho que vai tomar, e no final vai ajustar contas lá no dia do Juízo Final. Deus dá essa liberdade. E vem a pergunta: mas, se Ele também perdoa todos os pecados, todos chegarão ao céu e o inferno ficará vazio?

Nos dias de hoje, crimes cada vez piores estão sendo cometidos. Mais crianças morrem em favelas devido ao tráfico, mais aviões caem, mais jovens bebem e se espatifam nas estradas por aí, mais deputados se corrompem… O cenário é preocupante.

Os seres humanos são supostamente criados à imagem e semelhança de Deus, e têm direito à vida e à felicidade. Porém, estão sendo assassinados a cada dia, em cada canto do País, na mesma intensidade com que são feitos abortos irresponsáveis ou alguém usa algum tipo de droga.

Quem os está mandando para o inferno ou para o Céu? Eu, você, o governo, o diabo ou Deus? Já não vejo mais o sol, faz escuro, entretanto ainda enxergo o futuro. A violência vai bater à sua porta… É apenas uma ameaçadora questão de tempo.

6 comentários


Advogados que não fazem Direito

Publicado em 10 de julho de 2007 na categoria direito, opinião.

Faculdade de Direito

A faculdade de Direito é a melhor faculdade que existe. Nela agente aprende muita coisa legal, muita coisa interessante, revê pontos de vista, revê valores, agente discute, argumenta, fundamenta, aprende os direitos e os deveres do cidadão. Tudo isso, sem exceção, em prol de um país mais justo e com igualdade entre as pessoas. A faculdade de Direito, além de formar profissionais, forma cidadãos.

Na teoria, tudo é lindo, tudo é justo, o processo é realmente o melhor método para resolver qualquer tipo de conflito. Na “vida real” nada do que agente aprende é o que acontece: senador come jornalista e paga a pensão alimentícia com dinheiro de lobistas, o irmão do presidente é investigado pela polícia federal, que faz inúmeras operações com nomes cada vez mais criativos e de vez em quando sobe o morro e mata todo mundo, ninguém - a não ser o ministro Palocci - consegue viajar de avião, enfim… basta abrir qualquer jornal e ver em que país se vive. E o presidente como sempre, não sabe de nada, não viu nada, não ouviu nada… Enquanto isso, como se não bastasse, a ministra relembra sua juventude e manda a todos que “relaxem e gozem”. Na faculdade os professores chamam isso do mundo do “ser” e mundo do “dever ser”.

Mas nós estudantes, mesmo com tudo isso, não perdemos o otimismo. Eu não perco.

Acredito que um dia o país toma jeito, acredito que um dia haverá justiça, que um dia haverá igualdade, que ninguém morrerá de fome ou de sede enquanto corruptos fecham o caixa. Acredito que um dia o Congresso Nacional vai entender porque existe, ao invés de ficar propondo CPI adoidado por aí (se bem que, com tais congressistas, é melhor mesmo que não legislem).

Aí agente resolve ser bacana ajudando as pessoas de uma maneira bem simples: tirando as dúvidas que elas têm perante o mundo jurídico, que não é tão interessante assim para a maioria delas.

Pois bem, tudo vai nos conformes até que seu blog é visto por um advogado. O mesmo advogado que um dia sentou nas cadeiras horríveis da faculdade e não sabia fazer a prova de Direito Civil. O mesmo advogado que fez aquele juramento, onde diz que lutaria pela justiça.

Parece que ele esqueceu. Ele olha o blog e pensa: “nossa, não pode existir alguém tão legal assim, que resolva trabalhar de graça e que ajude as pessoas a viver num país melhor, vou processá-lo”. Aliás, essa mania de ficar falando que vai processar tudo e todos me irrita.

Direto ao ponto, porque o desabafo ficou maior do que imaginei: última terça-feira eu recebi um e-mail nada amigável de um advogado dizendo que se eu continuasse com a coluna “Seus Direitos” ele entraria com representação contra mim na OAB, pois eu supostamente estaria infringindo o Código de Ética e Disciplina. E como eu sou inscrito na OAB (como escragiário/estagiotário/estagibobo etc.) eu poderia perder minha carteira ou, pior, nunca ser aprovado no concurso que eu quero tanto passar.

Caso alguém não saiba, na carreira jurídica, qualquer coisinha errada na sua vida e ploft, você não passa em concurso nenhum. É preciso ter a chamada “reputação ilibada e notório saber jurídico”. (A palavra ‘notório’ na expressão é meramente ilustrativa, troque-a por “total saber jurídico”)

Sei lá, acho que esse advogado passou cinco anos na faculdade de Direito e não aprendeu o essencial…

17 comentários